Zero de governo
Tenho lido com muita atenção as análises políticas e econômicas publicadas no jornal Valor Econômico. Os materiais publicados tem fortes componentes de tendências num momento em que o país está quase desgovernado. Na última terça-feira trouxe uma entrevista de página inteira no caderno A, com o "brasilianist" David Fleischer, norte-americano especialista em política brasileira. Sociólogo e professor da UnB, vive no Brasil há 43 anos e pôde assistir a todas últimas grandes crises brasileiras.
Sobre a crise atual, ele definiu: "a situação da presidente Dilma ficou extremamente complicada porque ela tem zero de governabilidade, e nada indica que isso vai melhorar a curto ou médio prazos". Outra anotação dele: "a situação pode chegar a tal ponto que o PT pode pedir a renúncia da presidente, numa última tentativa para salvar o partido nas eleições de 2016 e, por tabela, na sucessão presidencial de 2018". Como explicar que a presidente Dilma, eleita há menos de um ano esteja em tão adiantado grau de decomposição política? Fleischer diz: "Dilma é vítima dos próprios erros que cometeu, sobretudo, ao longo do primeiro mandato. Como diz o ex-ministro Delfim Netto ´ela é muito trapalhona'". Fleischer não crê que ela renuncie por vontade própria, mas admite que através de pressões do PT, porque o partido está muito preocupado com as eleições de 2016 e com as de 2018 pra não perder muito mais feio.
Na opinião dele a instalação possível do impeachment na Câmara dos Deputados é uma espada sobre a cabeça da presidente do seu partido, porque poderão desembarcar no processo muitas provas vindas da Operação Lava Jato. Fleischer lembra o presidente Richard Nixon, dos EUA, em 1974, envolvido no escândalo "Watergate", que renunciou sob pressão do Partido Republicano, em troca da garantia de perdão pelos crimes cometidos no escândalo. Há semelhanças aqui no Brasil em relação à presidente Dilma.
Sobre a sucessão, ele admite que Michel Temer, se assumir, levará o PMDB ao poder por três anos restantes do mandato, mas dificilmente conseguirá eleger o próximo presidente. Terá um presidente tipo estepe. E uma vez no cargo, Temer terá que fazer duríssimos ajustes que hoje Dilma se nega a fazer. A leitura do governo Dilma, por Fleischer é: "Ela não quis ouvir ninguém, muito autônoma e independente, ´eu sou economista, eu entendo tudo', nem sugestões de Lula ela quis ouvir. Como falou Delfim Netto "´ela é muito trapalhona'.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso




