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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Opinião

A doença da fome

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Nos distantes e largos Brasis não há casa-grande sem senzala;não há Jardins e Morumbi sem Jardim Ângela e São Rafael; não há cortes nobres de bovino sem o osso da fila do açougue. Parecem contrários, mas são adjacentes, vizinhos.

São partes da nossa estrutura e mecanismo social. E manter as coisas como estão, sem jamais mudá-las é bom pra quem está na casa-grande, no Morumbi e provando um corte nobre de carne. O que sempre foi assim continua, continua e continua. O progresso, o desenvolvimento mantêm a desigualdade relativamente estável, como ela está.

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O desprezo com os mais pobres é corriqueiro. A afeição é pela busca individualista, pela domesticação das desigualdades socioeconômicas. Está nas “narrativas benignas” sobre a desigualdade. Políticos no poder têm grande apreço por “narrativas otimistas”: querem legitimar seu vazio legado e permanecer no seu ilusório poder.

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E não me venha com essa de esquerda e direita, comunismo e fascismo(mais palavras que pouco dizem, algumas palavras não dizem mais);nunca os pobres do Brasil, ouso dizer, do mundo, foram a prioridade dequalquer Governo.

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A batalha cotidiana contra a miséria, contra a fome é realizadapelosdesprovidos, peloscarentes, por aqueles que têm falta, que não têm ou foramprivadosdo mínimo. O combate ocorre no Brasil real, na vida real, por pessoas reais, que no clima quente suam frio.
Cada dia tem a sua agonia. Em visita à Unidade Básica de Saúde, uma técnica em enfermagem me narrou que uma senhora chegou com uma sacola na mão, com tontura, quase desmaiando. A profissional de saúde disse também que parecia haver um quadro de ansiedade e pânico.Foi receitadoremédios, que nem sempre tem no posto. A Sra. disse chorando: “Preciso de dinheiro para os meus remédios. Mas como vou comprar, se nem dinheiro pra comer tenho?”. Sensibilizados, os profissionais da unidade de saúde doaram cestas de alimentos. E a gente foi atrás do medicamento.

“Imagina você ter crianças em casa e não saber como vai levar comida pra casa?”, disse a técnica em enfermagem. Eu que, às vezes, quero entender “a inteira”, perguntei: então ela não estava doente? Não é doença, é fome!Parece alguma doença, mas, na verdade, estava faminta aquela senhora.

E você, Leitor (ra) atento (a), tem fome de quê?

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