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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Opinião

Não confunda solitude com solidão

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Dias atrás escrevi um artigo cujo título era “Não sou antissocial, sou seletivo”. Modéstia parte, o artigo “mexeu” com os leitores, recebi várias críticas. Com efeito, o texto foi reconhecido ao ponto de ser publicado em diversos sites e jornais do país.

Em uma das críticas – construtiva é claro! – recebida de uma amiga e leitora, amiga essa que constantemente temos discussões acaloradas em razão de divergência de opiniões – discussões construtivas! – ela sugeriu que o artigo do “… sou antissocial, …” tivesse continuação.

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De pronto, aceitei a sugestão e a amiga leitora com o objetivo de subsidiar o novo assunto, me enviou um, exemplar antigo, da Revista Superinteressante, edição 407, onde sugeriu a leitura da reportagem intitulada, “A explosão da solidão”.

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Li a reportagem, de onze páginas, que por ser relativamente antiga é super atual. E percebi, que guardada as devidas proporções, o tema daquele meu artigo não estava totalmente “fora da casinha” como alguns disseram.

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Ao realizar as duas leituras, depreendi que em muitas partes do texto da revista há um antagonismo de opiniões daquelas constantes do meu artigo. Por isso entendo, que a opinião contida no meu artigo não está totalmente errada como muitos leitores pregaram, assim como a opinião da renomada revista não está totalmente correta. O ponto de vista depende das circunstancias e acima de tudo de uma palavrinha que muitos confundem o significado, solitude.

Duas passagens na reportagem me chamaram a atenção, sem contar o caso do homem que ficou preso durante 29 anos.

Primeiro, quando o sociólogo José Machado trata da individualidade, afirmando que hoje em dia as casas se transformaram num refúgio da individualidade que reflete uma realidade contemporânea marcada pela explosão da solidão e que em um mundo cada vez mais conectado virtualmente, paradoxalmente, as interações presenciais parecem se tornar mais escassas.

Para esse entendimento deixo o seguinte ponto de reflexão: Será que essa individualidade mencionada pelo sociólogo é necessariamente um problema ou pode ser uma escolha consciente e benéfica?

E, segundo que é o posicionamento que mais me agrada, é quando o mesmo sociólogo português, explica que o tipo mais comum de moradia moderna é o apartamento, termo que, ironicamente, significa separação. Para o sociólogo, esse dado (morar em apartamento) reforça a noção de que a estrutura urbana contemporânea favorece o distanciamento social.

É diferente morar em casa ou apartamento. Em que pese, hoje em dia para morar em casa o morador também está restrito as regras condominiais, pior é morar em apartamento, pois embora possa proporcionar um ambiente teoricamente mais seguro, muitas vezes esse tipo de moradia promove o isolamento dos indivíduos.

E por falar em isolamento, minha amiga leitora e mentora desse texto, quando estávamos discutindo sobre o tema, proferiu a seguinte frase que chamou minha atenção, “Elevador de prédio é o lugar mais constrangedor que já vi na vida; os usuários são como famílias, mas não se conhecem.”

Dito isso, fica claro que novamente defenderei a opinião registrada no artigo “Não sou antissocial, sou seletivo”.

Pois bem, o texto da revista, enfatiza os impactos negativos do isolamento, mas ignora o fato de que estar sozinho de forma consciente e desejada, que é a solitude, pode ser benéfico e até necessário para o desenvolvimento pessoal.

Entendo que, em vez de tratar a individualidade como algo prejudicial, é preciso reconhecer que muitas pessoas escolhem se afastar de interações sociais superficiais para preservar sua saúde mental e emocional.

Além disso, a ideia de que a hiperconectividade deveria impedir a solidão parte do pressuposto de que a quantidade de interações determina sua qualidade. No entanto, pesquisas mostram que relações autênticas e significativas são mais importantes do que um grande número de contatos. Como exemplo, temos a teoria do “número de Dunbar”, que sugere que os seres humanos conseguem manter, no máximo, cerca de 150 relações sociais estáveis.

Adicionalmente, a seletividade social, longe de ser um sintoma de isolamento patológico, como muitos pensam ser, pode ser uma forma saudável de evitar relações desgastantes e manter um equilíbrio emocional.

Corroborando com meu entendimento sobre a seletividade, a teoria da “seletividade socioemocional” propõe que, à medida que as pessoas envelhecem e percebem o tempo de vida como mais limitado, elas tendem a priorizar relações sociais que lhes proporcionem maior significado e satisfação emocional, reduzindo interações consideradas superficiais ou menos gratificantes.

Além disso, o conceito de solidão como algo tido e dito prejudicial não considera as diferenças individuais. Enquanto algumas pessoas podem sofrer com o isolamento, outras encontram na solitude um espaço para reflexão, criatividade e autoconhecimento.

A casa e também o apartamento, que a reportagem descreve como um refúgio solitário, pode ser, na verdade, desde que possua o “cantinho da caverna”, um ambiente de conforto e liberdade, permitindo que o indivíduo se desconecte do excesso de estímulos, as vezes não agradáveis, da vida moderna.

Dessa forma, ao invés de tratar a solidão como um problema a ser erradicado, é fundamental reconhecer que a individualidade e a seletividade social são escolhas legítimas e, em muitos casos, benéficas. O pulo do gato não está em evitar a solidão a qualquer custo, mas sim em equilibrá-la com interações sociais verdadeiramente enriquecedoras e cheia de solitude.

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