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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Opinião

Gilson de Barros X Corrupção Eleitoral.

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Lá, nos idos de 1982, quando a ditadura imposta pelo golpe militar de
64, já demonstrava cansaço, eu era ainda um recém chegado a Cuiabá: um
“pau rodado”, como diria os cuiabanos. De política partidária não
tinha experiência alguma. Até aquele ano, toda minha formação política
se dera tão somente nos movimentos sociais de base, principalmente nas
CEBS nordestinas.

O longo período de trevas, época dos “Órfãos do Talvez ou do Quem
Sabe”, registrado poeticamente por Alencar Furtado, já estava
chegando ao fim. Porem, ainda estava bem fresco em nossa memória as
imagens das prisões arbitrárias, das torturas, dos assassinatos, dos
exílios e das cassações daquele que se opunham ao regime. O País, o
qual Dom Paulo Evaristo Arns chamou de: “Brasil: Nunca Mais”, não era
até ali, algo do passado.

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As novas gerações precisam saber que naquele período poetizado por
Alencar Furtado, ou o “Brasil” documentado pelo Cardeal Arns, a
cidadania sofreu as piores humilhações. Eram intervenções sindicais,
perseguições políticas, entrega das nossas riquezas aos interesses
imperialistas, a corrupção, a impunidade e a amordaça na imprensa
pelas forças das baionetas, das bombas, ou pela lei do silencio do
famigerado AI5. No ano que cheguei a Mato Grosso, essas lembranças
ainda eram muito fortes.

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1982 foi um ano histórico. Havíamos recém conquistados o direito de
eleger os governadores. Cuiabá vivia um clima festivo e esperançoso de
dias melhores. A disputa eleitoral seria ferrenha. O desequilíbrio
financeiro entre os dois principais grupos que disputavam o governo
seria algo gritante e vergonhoso, ao ponto de ficar conhecido como a
da disputa do milhão contra o tostão.

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De um lado estavam os serviçais da ditadura, os capachos dos
desgovernos militares, com seus governadores biônicos e prefeitos sem
votos, indicados pelas forças mais reacionárias e retrogradas das
oligarquias. Era a união do que havia de pior e de mais atrasado das
classes dominantes em Mato Grosso.

Do outro lado se entrincheiravam as forças da resistência pela
redemocratização do país, pela defesa dos interesses nacional e pela
moralização da coisa publica. Ainda que a campanha eleitoral daquele
ano tenha sido extremamente desigual, mesmo assim foi no pau a pau. A
nossa militância era aguerrida.

Foi nessa conjuntura, quando, direto de Londres para Mato Grosso,
apareceu por aqui o famoso Bob Fields, o fascista e lacaio das
multinacionais, com a sua não menos famosa mala preta recheada de
dólares. Naqueles dias houve um derrame de dinheiro jamais visto em
outras campanhas. Compra de votos, caixa dois, abuso do poder
econômico, uso da máquina administrativa, enfim, era um vale tudo.
Para chegar ao poder atropelavam-se todos os escrúpulos.

Nesse país onde vigorava a lei do mais forte, ou seja, a do aparato da
ditadura, os poderosos de plantão podiam tudo. O Brasil fora
transformado pelos militares numa republiqueta de bananas. Mato
Grosso, como diria um poeta: “numa terra onde o filho chora, mas a mãe
não vê nem escuta. Era como se a selva e os pantanais mato-grossenses
pudessem abafar a acústica dos sons indescritíveis de tiros e de
gritos de morte”.

O processo eleitoral em 1982 foi uma verdadeira feira livre de compras
e de vendas de votos, onde estes eram negociados publicamente num
sistema leiloeiro do quem dá mais. Na verdade, nessa época não havia
eleições. Os mandatos eram descaradamentes comprados. Nunca vi antes
tantos bairros e favelas sendo encascalhados e casas de alvenarias
construídas por contas dos candidatos aos mais diferentes cargos.
Votos viraram mercadorias; eleitores: gados; bairros ou municípios
foram transformados em currais. Era algo de causar inveja aos mais
renomados coronéis nordestino.

Foi nessa horrível conjuntura, que presenciei na residência do Itauby,
na Morada do Ouro, uma família do Bairro Canjica, solicitando do
Gilson de Barros, algumas sacas de cimento em troca de votos. A
resposta foi na bucha: Não faço isso! Em seguida chamou esses
eleitores para a responsabilidade do voto consciente. Dizia ele que se
fizesse aquilo teria que apelar para a ajuda financeira do
empresariado. E dessa forma não seria mais um deputado do povo e sim,
mais um, entre tantos outros, mero representante da classe
empresarial. Ele queria ser livre para servir aos interesses dos mais
pobres, os favelados, os sem tetos.

Mesmo assim, naquele ano, Gilson foi o Deputado Federal que obteve
mais votos pela oposição. O nosso candidato ao governo, o Padre Pombo,
“o Pombo da Paz, o Pombo do Amor, o Pombo da Esperança”, como dizia o
Gilson, sem gastar um centavo, só não foi eleito devido às inúmeras
fraudes ocorridas em todo o estado. Bob Filds, que comprou o seu
mandato de Senador jamais voltou a Mato Grosso. O candidato que
assumiu o governo naquele ano, fez carreira política, acumulou
fortunas e deu bananas pro povo. E eu, que vivi uma parte dessa
historia, nunca fui candidato, e jamais serei! Desejo apenas seguir no
combate a corrupção o bom exemplo do amigo Gilson de Barros: O
Protesto do Povo! O Homem de Sempre!

Antonio Cavalcante Filho – Coordenador do Movimento de Combate à
Corrupção Eleitoral em Mato Grosso. MCCE – MT

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