Ambiente de testes · não indexado pelos buscadores
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Publicidade
E-01 · 1190 × 250E-01 · 336 × 100Super banner topo
Opinião

De metamorfose

Compartilhe Facebook X Texto

Boca da noite. Céu avermelhado. Temperatura caindo. O chapadão treme uivando com a ventania do Cachorro Louco. Um rasgo no cerrado abre passagem aos carros que se aventuram pela BR-364. Ao volante da Toyota Bandeirante tenho os pés em brasas com o vapor do motor que entra pelas frestas do assoalho. A poeira impregnada no corpo e na roupa é companhia naquela trilha que liga Minas a Rondonópolis.

Paro na Pensão do Bento, no município de Alto Garças. Garanto o pouso. Com uma coberta peleja e algumas talagadas da branquinha enfrento o vento gelado que passa uivando, levantando poeira e carregando folhas mortas. No lusco-fusco clareando o dia 12 de agosto de 1973 retomo a viagem. Entre a cinza e o rebroto do cerrado vejo gado gordo, com o pelo liso e sem berne. Bela imagem do nosso abençoado Mato Grosso.

Publicidade
E-02 · 300 × 420

Naquele mesmo ano, não muito distante da Pensão do Bento, em Rondonópolis, o gaúcho Adão Riograndino Mariano Salles literalmente lançava a semente da mudança econômica regional cultivando na fazenda São Carlos a primeira lavoura de soja mato-grossense. Com pesquisa e investimentos Adão serviu de espelho para que a leguminosa chinesa se espalhasse por onde até Deus duvida.

Publicidade
E-03 · 600 × 100E-03 · 300 × 100
Leia tambémO Brasil produz como em 1958

A Pensão do Bento não mais existe. O poeirão vermelho e os atoleiros da 364 foram substituídos pelo asfalto que recebe tráfego intenso, pesado, nervoso, com muita pressa. O cerrado cedeu espaço à agricultura que produz para o mundo. O tempo passou passando, sem pressa, mas inexorável. Mudanças aconteceram e muitas mais continuarão ocorrendo em Mato Grosso, como parte do ciclo evolutivo da Terra. Sem que notasse perdi a juventude daquela época, passei pela meia-idade e estou às vésperas dos setenta.

Publicidade
E-05 · 300 × 250E-05 · 300 × 250

Menos por mim, que reconheço a fragilidade humana e entendo que somos transitórios, mas pelo comparativo entre o ontem e o agora para a coletividade – e mais ainda pelo temor do amanhã – tenho saudade daquele bom período de plena identificação do homem com o mundo, de mais calor humano e menos tecnologia, de mais vida e menos violência, de mais Cristo e menos cristianismo financeiro. Passou, tudo passa…

Agora a lavoura da soja vai além da linha do horizonte. A logística de transporte ganha diversificação. Tudo muda muito rapidamente na desembestada corrida do indivíduo contra a lógica de sua existência.

Todos nós sessentões, sem exceção, em maior ou menor escala, intencionalmente ou não, por ganância ou comodismo, de um modo ou outro destruímos a Pensão do Bento, derrubamos o cerrado e matamos sua fauna, desviamos de Mato Grosso o vento gelado que passava uivando, poluímos suas águas, corroemos costumes, solapamos valores tradicionais, desfiguramos conceitos familiares. Abrimos a porta ao mundo tecnológico e impessoal. Digo aos meus filhos Jeisa, Agenor e Luiz Eduardo, e aos meus netos Ana Júlia, Maria Carolina e Eduardo: essa metamorfose não valeu a pena.

Eduardo Gomes de Andrade é jornalista
[email protected]

 

Publicidade
E-04 · 600 × 100E-04 · 300 × 100

Mais sobre Opinião

Ver tudo →
Publicidade
E-06 · 300 × 250
Publicidade
E-08 · 970 × 250E-08 · 300 × 250Billboard antes do rodapé