Ambiente de testes · não indexado pelos buscadores
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Publicidade
E-01 · 1190 × 250E-01 · 336 × 100Super banner topo
Alexandre Garcia

O relâmpago

Compartilhe Facebook X Texto

O advogado mineiro Bruno Miarelli e a noiva dele, Juliana, só souberam que não estavam no vôo 447 da Air France, na festa de casamento, em Belo Horizonte. A agente de viagem estava entre os convidados, e comunicou aos noivos que os havia posto num vôo anterior para garantir, em Paris, a conexão para Roma. Bruno reclamou. "Você está estragando nossa noite de núpcias. Vamos ter que acordar cedo para ir para o Rio." Só souberam do acidente quando acordaram em Roma e viram no celular dele nove chamadas da mãe preocupada. Nesse fim-de-semana, voltaram de Roma, se sentindo mais vivos do que nunca.

Outro casal, Johana e Kurt Ganthaler, também deixou de embarcar no AirBus. Os dois chegaram atrasados ao Galeão e o vôo 447 já estava fechado. Foram embarcados no vôo seguinte e saíram nos jornais como salvos do desastre. Em Paris, alugaram um carro e foram passear na Áustria. O carro saiu da estrada numa ultrapassagem e bateu em uma árvore. Johana morreu e Kurt está em estado grave. Ela ganhou 12 dias de vida.

Publicidade
E-02 · 300 × 420

São 11 horas e 13 minutos da noite de domingo, 31 de maio. Na primeira classe, o passageiro brasileiro está tomando champanhe – sim, champanhe, porque é francesa. Já havia lido o cardápio do jantar. Lagosta. A aeromoça, bela e simpática, servia queijos – sim, também franceses. Ele pensa no que vai fazer em Paris, durante a semana. A moça ao lado puxa conversa: "Tudo bem?". E ele responde, com a mais convicta sinceridade: "Que mais eu poderia querer da vida?". Aí ele vê um relâmpago, pela janela. Depois o avião sacode e há um estrondo.

Publicidade
E-03 · 600 × 100E-03 · 300 × 100
Leia tambémQuatro anos

Conto essas histórias para fazer pensar sobre a relatividade da vida. Alguns vão levantar teorias de "estava escrito"(maktub); outros dirão que é o destino, que ninguém foge da sorte já traçada. Que cada um tem a sua hora; que nada adianta fazer. Provoco essas teorias para contestá-las. Ora, se já está escrito, se o destino tem marcada a nossa morte, então de nada valem nossos cuidados com a alimentação; não adianta fazer exercício físico; podemos beber à vontade; dirigir em alta velocidade sem revisar sequer os freios do carro. Quem sabe decidimos saltar de um penhasco para testar se voamos? Talvez não esteja escrito que aquela é a nossa hora. E afinal quem escreve esse nosso destino? Será que alguém decide matar alguns e salvar outros? Seria um grande jogo, com quase 7 bilhões de personagens, cuja vontade própria e cujo livre-arbítrio existem apenas para ampliar as emoções do jogador? Será que esse tal senhor Destino se compraz com isso? Com as perdas, os sofrimentos?

Publicidade
E-05 · 300 × 250E-05 · 300 × 250

Obviamente essas hipóteses são inverossímeis. Não há causas para isso. Não somos marionetes. Mas podemos nos precaver. Acreditar que estamos nas mãos do Destino é acreditar que somos cordeirinhos, andando para a matança certa, mais cedo ou mais tarde, em diferentes circunstâncias. Como não é assim, vamos tomar cuidado e evitar esse "acaso". Na cidade, fique de olho, por exemplo, ao atravessar a rua ou à aproximação de alguém suspeito, que pode estar com um revólver engatilhado, pronto para assaltar você. Quer se matar aos poucos? Fume, entupa-se de álcool e gorduras. Vai doer muito. Quer tentar a morte ou uma mutilação? Aperte fundo o acelerador; não revise seu carro. Mas se quiser mais vida, com qualidade, não provoque o acaso. Que pode aparecer, num relâmpago.

 

Publicidade
E-04 · 600 × 100E-04 · 300 × 100

Mais sobre Alexandre Garcia

Ver tudo →
Publicidade
E-06 · 300 × 250
Publicidade
E-08 · 970 × 250E-08 · 300 × 250Billboard antes do rodapé