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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Alexandre Garcia

A falta que ele faz

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Quando eu cobria Roma, em 1992, a Itália fazia dois meses que estava sem chefe-de-governo. Perguntei a um colega do jornal La Repubblica como o país sobrevivia sem primeiro-ministro. Ele me respondeu que a ausência não faz a menor falta. O lamentável para a Itália seria quando Giovanni Agnelli morresse. O grande chefão da Fiat, na Itália, tinha mais importância que o chefe-de-governo. Pensei nisso quando, pela manhã cedinho de segunda-feira, recebi a notícia da morte de Antônio Ermírio de Moraes, o homem da Votorantim, empresa presente em 20 países com cimento, aço, alumínio, energia, celulose, agroindústria e banco. O Brasil fica menor sem ele.

Depois da notícia, a rádio publicava frases dele, como a de que “o dinheiro não é importante; o importante é o que a gente tem na cabeça”. Trabalhava das 7 da manhã às 10 da noite e não tirava férias. Fazia plantão sábados e domingos. Avesso à ostentação do tipo Eike Batista, como todo grande homem, Antônio Ermírio era simples, humilde. Dirigia o próprio carro velho, usava ternos usados do filho, apagava a luz ao sair do quarto, andava a pé – e tinha uma fortuna de quase 30 bilhões de reais. Era um filantropo discreto, salvando mosteiros, escolas, hospitais sem alardear. Morreu com 86 anos, vitimado por Alzheimer. 

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Em 1986, sonhou em mudar a política e se candidatou ao governo de São Paulo. Anunciou que em seu governo médico teria que bater ponto, professor teria que dar aula, funcionário público teria que ter produtividade e atender bem o povo, empresário teria que vender com nota fiscal. Tal como administrava suas empresas. O resultado foi a derrota para Orestes Quércia. O eleitor do maior colégio eleitoral do país não o quis. Pesquisa da Transparência Brasil mostra que quatro em dez candidatos a governador, hoje, têm registros na Justiça ou no Tribunal de Contas. Em 165 candidatos a governos estaduais, 63  respondem a 327 processos. E mais: 46 deles já sofreram condenação, quatro foram cassados e dois presos no exercício do mandato. Um homem como Antônio Ermírio foi retirado dessa malta pelos eleitores intimidados por uma nova ordem.

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Um ex-prefeito de João Pessoa, também chamado Antônio, contou-me que ao assumir descobrira que a Prefeitura admitia sem concurso público, como manda a Constituição. E instituiu o óbvio: cumprir a Constituição, exigindo concurso. Vereadores se insurgiram contra o prefeito. Afinal, as empregadas domésticas dos vereadores estavam na folha-de-pagamento da Câmara, como “assessoras” de suas excelências. É para mudar esse tipo de país atrasado e sem ética nem vergonha, é que precisaria de homens como Antônio Ermírio; para fazer um Brasil S.A., parecido com a Votorantim. Mas ele morreu. E o Brasil morrerá também se não se livrar dos malfeitores.

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