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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Opinião

Guerra simbólica 2

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As eleições são cada vez mais um processo de teatralização. Os candidatos não são apenas pessoas filiadas a partidos. São personagens tentando representar papéis que sejam capazes de ativar o sistema simbólico dos eleitores, a sua platéia, para sensibilizá-los a dar-lhes o voto como prêmio. Isso tudo afasta a idéia rasa de teatralização como ilusão. Como diz Renato Janine Ribeiro, “teatralização é tudo, menos uma falsidade (…) Trata-se de um procedimento no qual extrema atenção se dá ao engate entre forma e conteúdo, significante e significado, operação e espírito”.

Além dos fatores já citados no artigo anterior (despolitização da massa, enfraquecimento dos partidos, etc.), há os fenômenos descritos por Guy Debord (Política como Espetáculo) e Bernard Manin (Democracia do Público). O primeiro indica que um “reduzido grupo de especialistas e políticos profissionais participa da cena política como atores, enquanto a grande maioria da população toma contato com esse mundo através da mídia na qualidade de espectadores (…)”; e o segundo sustenta que “esse modelo é marcado pelo enfraquecimento dos partidos, pela personalização do poder, pela forte presença da mídia e das pesquisas, pela transformação das características dos políticos, acentuando-se os seus atributos de comunicadores”. (SILVEIRA, Flávio Eduardo, 2000. KONRAD ADENAUER STIFTUNG).

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Nessa busca pelo estabelecimento de uma relação cognitiva com os eleitores, os candidatos normalmente assumem quatro arquétipos básicos, como ensina Carlos Manhanelli nos seus cursos de marketing político: a) Homem Simples; b) Líder Charme; c) Pai de Todos ou Pai dos Pobres; e Herói ou Salvador da Pátria.

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Há inúmeros outros arquétipos, evidentes, mas a maioria dos conhecidos deriva desses quatro. Exemplos podem ser encontrados nas campanhas de Lula desde 1989 (Pai dos Pobres), Fernando Collor na campanha presidencial (Herói travestido de Caçador de Marajás), e Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 (Líder Charme, na figura do intelectual de esquerda, poliglota, professor universitário, etc.).

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No artigo anterior explorei o exemplo de Wilson Santos, que vestiu o personagem de Galinho, “líder popular emergido do seu do povo”. Perfil que se encaixava, portanto, no Herói do Povo (embora WS seja professor de cursinho e possua boa retórica política).

Esse papel, nas próximas eleições, ao que parece pertencerá a outros candidatos. No presente momento, Walter Rabello e Sérgio Ricardo convencem mais nesse papel, por suas características naturais de políticos-comunicadores de linhagem popular, com forte exposição de mídia e domínio das técnicas televisivas e discursos simplificados.

Carlos Abicalil é o que mais se aproxima do Líder Charme. Sua bagagem intelectual, sua imagem ‘clean’ e seu vocabulário denso satisfazem o segmento mais intelectualizado dos eleitores. Já Valtenir Pereira está entre o Charme e Homem Simples, sobretudo por sua história pessoal envolvendo a morte do pai, em parte responsável por suas vitórias eleitorais até aqui.

Sobre os discursos, os elaborados e complexos, embora empolguem acadêmicos e intelectuais, são de pouca valia numa disputa eleitoral. O discurso eleitoral é feito para a massa, por meio de canais de massa. Ao falar na TV, o candidato fala para milhares ou milhões de pessoas invisíveis, que o percebem pela tela da TV ou pelo som do rádio. Uma a uma, mas simultaneamente. Isso é muito diferente do falar num diálogo entre poucas pessoas ou mesmo num comício com milhares.

E tudo que se destina à massa deve passar pelo processo de simplificação, porque o objetivo é atingir a maioria das pessoas, logo, deve-se equalizar o discurso para os de menor entendimento.

Discurso eleitoral é uma das principais formas de expressão dos símbolos eleitorais ou arquétipos. Mas, não é a única e em alguns momentos não é a mais importante. O personagem é visto por seu conjunto. Gestos, vestuário, expressões corporais, atitudes, jeito de andar, tom de voz, tudo compõe o personagem. Por isso não se deve montar um personagem artificialmente. O posicionamento proposto, para ser vitorioso (ou seja, para estabelecer uma relação simbólica com o eleitor) precisa basear-se em dados críveis, naturais, de certa forma espontâneos. Vestir o personagem inapropriado é igual a sapato apertado: mais cedo ou mais tarde calos surgirão e você começará a mancar.

Kleber Lima é jornalista pós-graduado em marketing e analista político.

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