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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Opinião

Literatura e política

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“Meninos, eu vi!”. Pego carona na famosa frase de Juca Pirama, personagem do belíssimo poema “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias, poeta do Romantismo brasileiro. Estimado (a) leitor (a), eu vi! Apesar da distância que me separa do meu Estado natal, vi e tenho visto. Isso graças à rede mundial de computadores. Salve a Internet! Vi a instalação da CPI da SEMA; tenho visto, pois é recorrente, o desserviço que parlamentares da Assembléia Legislativa têm prestado às suas bases eleitorais e ao Mato Grosso (friso que não são todos. Nem garanto que seja a maioria. Faço alusão àqueles que gostam de um populismozinho); vi a apreensão dos adeptos do “troca-troca” partidário com os entendimentos do STF e do TSE, incluindo-se na lista até Governador (no singular mesmo) de Estado; vi a diminuição do mandato de prefeito para três anos. (Você não viu? Falta um ano – 25% do mandato – para a eleição e só se fala nisso!); tenho visto o esquecimento do nortão pelo Governo do Estado – fato que sempre existiu, triste e incômoda realidade; vi as operações pirotécnicas da Polícia Federal, em nossa região; para não ficar muito bairrista, enfim, vi também que o presidente Lula e seus asseclas não viram nada.

“Mas o que isso tem a ver, no limite do razoável, com a literatura?”, perguntar-me-iam. Primeiro, respondo-lhe “sem pressa, leitor (a)”. A justificativa em si para a minha aparente embromação fica por conta do nosso Machado de Assis, em suas Memórias Póstumas de Brás Cubas, com as adaptações necessárias: “(…) o livro [o artigo] é enfadonho (…), porque o maior defeito deste livro [artigo] és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro [artigo] anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro [artigo] e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”. Refrigerados os ânimos, continuemos. É verdade que os fatos mencionados no início renderiam boas histórias de ficção, comédias, romances, autos, tragédias, os quais se encaixariam nos mais diversos gêneros literários – Lírico, Épico ou Dramático. No entanto, a razão principal que me leva as mãos ao teclado é outra. Dia 29 de Outubro foi o Dia Nacional do Livro. Pausa. Digo alguma novidade? Se não sabia, não se intimide. Ninguém sabia. Sempre critico os parlamentares por conta de sua maior especialidade, qual seja, a de criar feriados, homenagear santos em algum dia, batizar ruas e viadutos com nomes de pessoas famosas. Mas releve, ou melhor, considere o dia que o Brasil escolheu para o livro. É por uma boa causa. Isso ganha importância ainda maior se considerarmos uma pesquisa – confesso que não sei se é a mais atualizada – da Câmara Brasileira do Livro (CBL), segundo a qual o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano. Chegar à conclusão de que o brasileiro lê pouco é pouco demais.

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“Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”, diz Macunaíma, personagem protagonista de livro homônimo, de Mário de Andrade. Discordo. As agruras brasileiras têm como fonte (renovável) a falta de leitura dos brasileiros todos, incluída a classe dos homens públicos. Assim, respondendo à sua pergunta (aquela sobre a relação entre política e literatura), caro (a) leitor (a), digo que, no caso do Brasil, ocorre a negação do pressuposto, simplesmente porque não existe essa correlação. Os nossos representantes, que são filhos de Deus e, portanto, brasileiros, também não lêem. Penso que, para se candidatar a um cargo público, um curso superior não deveria ser exigido – muitas faculdades emburrecem o aluno, e não são poucas, se se levar em conta o número assustador das que praticam estelionato acadêmico. Mas defendo, sim, que a candidatura deveria estar vinculada a uma prova sobre obras literárias previamente listadas, como se faz nos exames vestibulares. Na minha humilde opinião, a falta de leitura guarda estreita relação com a falta de moralidade na vida pública. No Japão, onde a população, sem margem para especulação, lê muito mais que nós, um político, quando se vê envolvido em um escândalo, renuncia ou se suicida (mês passado, o primeiro-ministro daquele país renunciou por tal motivo), como nas tragédias gregas, se a comparação não for muito forçada. É claro que, se a moda vingasse por aqui, faltaria lugar em nossos cemitérios, como acontece em nossos presídios…

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Ler um bom livro não significa apenas viajar em uma historinha legal ou engraçadinha. Os personagens dessas obras-primas representam tipos sociais, pessoas que existem no lado de cá, na vida real. Os grandes escritores têm/tiveram um senso aguçadíssimo de como o ser humano funciona, mostrados os seus vícios e as suas virtudes. As situações em que os personagens são colocados também cumprem essa função. E conhecer, minimamente, a maneira como as pessoas se comportam é de valiosa utilidade para quem precisa tomar uma decisão, sobretudo se esta influenciar a vida dos outros. Daí a necessidade de se criar, no Brasil, a relação entre política e literatura – fazer política, em última instância, significa tomar decisões. Porém, leitor (a), enquanto uma Proposta de Emenda à Constituição que vincule a candidatura à leitura não é apresentada e, enquanto a bandeira da educação não dá Ibope – o senador Cristovam Buarque é um exemplo -, tenha iniciativa e leia. Se não acredita em mim, invoco Guimarães Rosa, na década de 1950, em Grande Sertão: Veredas: “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho”. Faça o seu dever de casa, faça a sua parte! Em meio a tantos acontecimentos estranhos, para usar um eufemismo, na política nacional, só há uma forma inteligente de protestar. Não se iluda, estimado (a) leitor (a), estudar é a melhor forma de protesto que existe.

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Thiago Stuchi Reis de Oliveira é alta-florestense e estudante de Direito na Universidade de São Paulo (USP)

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