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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Alexandre Garcia

Ditadura da democracia

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AGRIGENTO, Itália – Aqui neste lugar onde  floresceu a Magna Grécia, à sombra do intocado Templo da Concórdia, de onde 26 séculos nos contemplam, o siciliano que distribui folhetos de um ristorante,  puxa conversa  e entramos na política. Abaixo de nós, as praias onde, em  julho de 1943, Patton e Montgomery começaram a invasão aliada da Europa nazi-fascista Nesse cenário histórico, ele quer me convencer que a Itália vive uma ditadura disfarçada de democracia. Ele está desempregado e  sobrevive distribuindo panfletos de propaganda e está com raiva por ter que pagar impostos mesmo assim. Argumentei que poderia ser pior; que ele poderia estar no Brasil e ter que pagar impostos para não ter bons serviços públicos.

 Para ele, é normal ter um sistema de saúde que funciona e escolas que igualam a todos. Na Sicília da máfia, ele não acreditaria se eu lhe contasse que quatro dias de assassinatos no Brasil equivalem a um ano inteiro de homicídios na Itália. Do local onde conversávamos, dava para ver um viaduto de quatro ou cinco quilômetros construído para evitar que a estrada tenha que descer ao vale e subir de novo. Por toda a parte onde tenho dirigido aqui na Sicília, as estradas são assim. Ou se furam as montanhas, com túneis, ou se atravessam vales pelo alto de extensos viadutos – a estrada vai sempre num plano e o carro anda de quinta a sexta marcha. O siciliano nem nota isso, porque começou a ser feito há 70 anos, em tempos da ditadura de Mussolini.

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Aliás, do ditador é uma frase histórica: Governare l’Italia non è dificile; è inutile. Por isso, o país vai tocando sua vida, independente de Berlusconi ou do jovem Matteo Renzi estar no governo. Certa vez, um colega do jornal La Repubblica me disse que a Itália pode ficar meses sem chefe de governo, desde que não perca seus grandes empresários, da Fiat, da Pirelli, da Parmalat, da petroleira ENI e o turismo – a principal fonte de renda do país. Um país que anda sozinho e recebe os serviços públicos como algo normal da vida, uma obrigação óbvia do estado, que tem impostos para isso. 

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Conto para ele que no Brasil pagamos impostos mas não temos estradas que se assemelhem às italianas e que no Brasil o estado é muito pesado, consome o nosso dinheiro e não nos presta bons serviços. Que o estado é poderoso, e a burocracia que é imposta a quem trabalha e produz atrapalha a produção e o trabalho. Que os escândalos frequentes são péssimo exemplo à juventude e contribuem para a decadência moral do país. O siciliano fica me ouvindo, incrédulo. Deve entender agora porque, afinal, o governo brasileiro deu abrigo ao italiano Cesare Battisti, condenado por homicídios em todas as instâncias da Justiça italiana. Só não vai entender o que chamamos, aí no Brasil, de democracia.

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