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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Alexandre Garcia

Mentes preguiçosas

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Um dos melhores intelectuais brasileiros, o escritor e jornalista Ivan Lessa, morreu na semana passada. As fotos que apareceram nos jornais, sempre com um cigarro entre os dedos, revelam a causa da morte: enfisema. O jornalista e escritor Geneton Moraes Neto, no seu blog, começou tratando assim a perda: "O Brasil deu um novo passo em direção à mediocrização ampla, geral e irrestrita: o coração de Ivan Lessa parou de bater." Em entrevista na GloboNews, Geneton acrescentava: "No Pasquim, Ivan Lessa brilhou. E lá estavam também Paulo Francis, Millor, Jaguar, Fausto Wolff e outros, que escreviam o que queriam. Foi quando brilhava o talento como na seleção tricampeã em 1970. Havia espírito criador e independência como nunca."

Fico comparando o testemunho do insuspeito Geneton com a propaganda travestida de História, que é passada aos jovens que não acompanharam os fatos dos últimos 50 anos como nós. O Pasquim surgiu em junho de 1969 – em pleno AI-5, portanto. Gozava, criticava, ironizava o regime militar. E sobreviveu a ele. Mas fechou em 1991, em pleno sistema democrático e civil. O que houve com o Pasquim parece ter acontecido com outros setores da intelectualidade brasileira. Geneton diz que naquela época brilhavam o talento, a criatividade e a independência. E não foi só no Pasquim.
Foi uma época áurea da música popular. A partir de 1966, Caetano, Gil e Gal tocavam e cantavam o Tropicalismo. A Bossa Nova cintilava com Tom, Vinicius, Sérgio Mendes, João Gilberto; os festivais nos palcos das TVs, com auditórios lotados, consagravam Ellis, Edu Lobo, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, com A Banda, Ponteio, Margarida, Sabiá, Fio Maravilha. Nunca mais tivemos aqueles talentos. Outro dia, em palestra para estudantes do curso médio, lamentei que eles tivessem perdido a época áurea da música brasileira. Hoje são letras idiotizantes em músicas com um máximo de três notas. E tudo aquilo a despeito da censura. O teatro foi o que mais sofreu com a censura, mas se dirigia a um público de elite. Ainda assim teve peças como Liberdade, Liberdade – que nos fazia sair do teatro com um desejo de Bastilha.

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Aí, não há como não perguntar: O que castrou a criação e o talento? Aparentemente a censura do governo militar não conseguiu isso. Antes os estimulou pelo desafio. Depois a criação e o talento estiolaram, como estiolou o Pasquim. Quando Geisel foi eleito pelo Congresso, por 400 votos contra 76 de Ulysses e declarou que viria a abertura democrática, de forma "lenta, gradual e segura" , parece ter plantado uma paradoxal seta em direção à mediocrização lenta, gradual e segura, que Geneton Moraes Neto parafraseou. Incompreensível que a liberdade da democracia torne as mentes preguiçosas

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