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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Alexandre Garcia

A corrupção é normal

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Não sei o que é pior: se a naturalidade com que os corruptos negociam as propinas ou se o fingimento dos políticos fazendo-se de surpresos com o que o Fantástico mostrou domingo. O Ministro do Tribunal de Contas da União, José Jorge, com a experiência de ter sido secretário de estado(em Pernambuco), Senador, Ministro de Minas e Energia, não teve dúvidas, quando lhe perguntei, no Bom Dia Brasil, sobre a corrupção filmada no Hospital Universitário do Rio de Janeiro: "Essa é a regra; não é a exceção."

E não é de agora. Há 25 anos, a dona de uma grande indústria de móveis de Brasília, contou-me estar enojada das negociatas com o governo. Pediam a ela que entrasse em concorrências de cartas marcadas, apenas para perder, com preços exorbitantes. "Queriam que eu desse o preço de uma mesa de reuniões como se ela fosse folheada a ouro." Há uns cinco anos, o embaixador de um país asiático me contou que deixou de lado um grande negócio com o governo, porque pediram 20% de comissão. "Se eu pagasse a propina, corria o risco de receber pena de morte em meu país."

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Pena de morte num país da Ásia, pena nenhuma neste país tropical. Os corruptos, gravados pela reportagem do Fantástico, não tinham preocupação alguma. "É normal." – disse um. "A gente está acostumado com isso" – esclareceu outro. "O mercado pratica 10%" – explicou outro, sem fechar a oferta de propina, que poderia subir para 15 ou 20%. Ontem, um comerciante me contou que anos atrás recebeu uma proposta de preço baixíssimo para ganhar concorrência de fornecimento de formulários contínuos. Estava abaixo do preço de custo. Mas a essência do negócio era: "Você recebe por 100 caixas, só entrega 50 e a gente divide."

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Outro dia, no aeroporto de Brasília, um fabricante de próteses ortopéticas me procurou para contar que estava fora de qualquer negócio com o governo, porque se recusara a participar da corrupção. A propina é sempre acrescentada ao preço que o contribuinte paga. Se uma reforma num estádio ou num aeroporto custa 20 milhões é porque na realidade custaria 1 milhão e 800 mil – porque está embutida a propina. E, segundo o experiente ministro do TCU, essa é a regra. A oposição quer fazer CPI para apurar a corrupção. Como as demais, acaba em nada. Sugiro o inverso: que a comissão apure que órgãos oficiais não cobram comissão e que empresas não pagam propina.

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Como isso é raro, é o que precisa ser investigado.

 

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