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quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Alexandre Garcia

Poupança e desconfiança

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Depois de muito boato circulando na internet – ela é o refúgio dos fracos de espírito – o governo anunciou novidades na poupança, como taxar o rendimento do que ultrapassar a 50 mil reais e diminuir o imposto da aplicação em renda fixa, para desestimular uma migração para a poupança. Muita gente discordou, mostrando que o limite a ser taxado deveria ser de 500 mil por CPF, já que abaixo disso, não faz sentido imaginar que atrairia grandes aplicadores financeiros. Quando os boatos circularam nessa senhora mentirosa, falsa e de língua ferina, chamada internet, muita gente acreditou que haveria algum tipo de congelamento da poupança – afinal, se Collor e Zélia foram capazes disso e o Congresso aprovou, nada mais se poderia duvidar.

Pois o pior não aconteceu, mas mostrou como andamos desconfiados, mesmo com uma instituição que deveria ser preservada a qualquer preço, que é a poupança. Afinal, não se violou a conta do caseiro Francenildo na Caixa Econômica, só porque três jornalistas desconfiavam que era o PSDB e não o pai biológico que haviam feito um depósito de 30 mil na conta da testemunha que havia visto o Ministro Palocci entrar na casa de encontros? Se por um telefonema de um assessor do Ministro foi possível violar uma conta de poupança, como confiar?

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Tenho uma caderneta de poupança da Caixa Econômica Federal. Foi aberta em 5 de novembro de 1946, por meu avô, dias antes do meu aniversário. Meu avô decidira que o neto, quando se formasse, poderia ter um capital inicial com a poupança que ele ia acumulando, a cada ano, com depósitos feitos no meu aniversário. Em 16 de novembro de 1949 eu já estava com duzentos e sessenta e cinco cruzeiros. Naquela época, meu pai pagava de aluguel por uma casa de três quartos, 50 cruzeiros. Meu avô morreu e minha caderneta na Caixa ficou como um símbolo da poupança. Eu nunca quis fazer retiradas, a menos que estivesse necessitado, um dia. Esse dia, felizmente, nunca chegou. Imaginei que estivesse a ganhar juros e correção monetária. Anos atrás, fiz um cálculo por cima e imaginei que tivesse, em reais de hoje, no mínimo 50 mil. Aí, fui à Caixa, com a minha caderneta, para saber o saldo.

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Eles pediram uns dias e depois me mandaram um fax, em dezembro de 1996, informando que aplicadas as leis tais e tais, o meu saldo, em 1º de outubro de 1996 era de R$2,16. Sabem o que aconteceu? Os governos foram roubando a poupança do menino; foram furtando os presentes anuais do avô. Foram cortando zeros do dinheiro e desvalorizando, sem dar à poupança a menor proteção, sem respeitar a instituição da poupança, na qual se baseia todo o país que queira ter força própria para crescer, sem precisar de capitais ou empréstimos externos. Meu avô era guarda-livros, exímio contador, guardião das leis; foi meu professor de cidadania. Pelo menos a morte o privou de ter essa dupla tristeza: a de ver furtarem a poupança do netinho e a de ver o país que ele amou não respeitar a poupança. Não me culpem se não confio.

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