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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Opinião

A culpa é do político que temos ou do eleitor que somos?

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Nos acostumamos a repetir que “o problema do Brasil são os políticos”, como se essa frase bastasse para explicar a baixa qualidade das gestões públicas e o desgaste constante das instituições. É uma afirmação confortável, afinal, nos coloca sempre na posição de vítimas. Porém, quando examinamos pesquisas sobre comportamento eleitoral, surge uma pergunta inevitável: a culpa é dos políticos ou do eleitor que não sabe escolher?

O Latinobarómetro 2023[1] mostra que 25,7% dos brasileiros não confiam nos Parlamentos e no Congresso e 33,6% não conversam com os amigos sobre política. Vota-se sem entender o essencial.

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Não surpreende que estudo do Instituto DataSenado[2] tenha revelado que apenas 18% dos eleitores tenham interesse por política e outros tantos afirmaram não ter conhecimento sobre o sistema político. Mesmo assim, a culpa recai sempre sobre quem está no cargo, nunca sobre quem colocou essa pessoa lá.

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A política brasileira, aliás, fornece um repertório vasto de situações que mostram o quanto parte da classe política transformou a vida pública em espetáculo. Já tivemos prefeito apostando corrida com garis para viralizar vídeo, além da célebre “dança da pizza”, celebrada como se fosse política pública.

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Também assistimos ao caso de deputada expor em desabafo público a traição do marido, também parlamentar, e à cena de um senador relacionando foro privilegiado a “suruba”, numa metáfora que explicita o nível de improviso que por vezes domina o cenário político nacional.

O problema não está apenas no fato de tais episódios acontecerem, mas no fato de parte do eleitorado normalizar, compartilhar e até premiar esse tipo de comportamento. Quando a política vira entretenimento barato e o eleitor se satisfaz com performances rasas, abre-se espaço para gestores que confundem popularidade com competência.

Em democracias mais maduras e sérias, episódios assim destruiriam carreiras para sempre. Aqui, pelos lados tupiniquins, muitas vezes, ampliam a visibilidade de quem os protagoniza.

Relatório da OECD[3] mostra que países com alta qualidade institucional investem massivamente na formação cívica. Lá, o cidadão entende como o Estado funciona, quais responsabilidades cabem a cada cargo e como avaliar políticas públicas.

No Brasil, outro estudo do Instituto DataSenado aponta que 45% dos eleitores escolhem candidatos com base em redes sociais, enquanto que em determinado estado da região Centro Oeste somente 35% leem os programas de governo dos candidatos. A consequência é óbvia: quando se exige pouco, a política devolve na mesma proporção.

Isso não isenta governantes incompetentes ou corruptos. Mas é intelectualmente desonesto ignorar que são eleitos por nós, repetidamente, muitas vezes apesar de sinais evidentes de má gestão.

A pergunta, portanto, já não é “de quem é a culpa?”, mas: por que resistimos a admitir que a democracia devolve exatamente aquilo que entregamos a ela? Se entregamos desinformação, ela devolve populismo. Se entregamos responsabilidade, ela devolve instituições fortes.

Devemos entender que a democracia devolve o reflexo do eleitorado. Exigir políticos melhores sem formar eleitores melhores é uma contradição que condena o país a repetir seus erros.

É notório que o político tem sua parcela de culpa, mas o eleitor que não sabe, ou não quer escolher, carrega parte fundamental da responsabilidade pelo cenário atual. E enquanto insistirmos em nos ver apenas como vítimas, continuaremos sendo cúmplices dos opressores.

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