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quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Opinião

Desafios cotidianos do CEPESCA e o apoio das instituições de pesquisa

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No Brasil os problemas são muitos. Mas o aprendizado para o convívio nos conselhos de participação e controle social, por outro lado, tem sido longo e frutífero. Assim, a regra democrática vai sendo lentamente internalizada como princípio e valor que deve dirigir as políticas públicas. Este é o caso da política de pesca e Mato Grosso tem dado um grande exemplo ao país.

Todos conhecemos o potencial pesqueiro do estado, resultado da combinação de características ambientais únicas que garantem água limpa e elevada biodiversidade. Mas sabemos também que as relações ecológicas são frágeis e que dependem de medidas protetivas para que os recursos pesqueiros não sejam esgotados.

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O governo, sozinho, é incapaz de definir o ponto de equilíbrio entre a exploração pesqueira e a necessidade de conservação, e aí reside a riqueza das relações democráticas. O CEPESCA-Conselho Estadual de Pesca, criado por lei em 2009, tem a tarefa de promover a articulação do governo com a sociedade civil organizada para melhorar continuamente a política, em bases sustentáveis. Por funcionar bem e por ter apoio de todas as instituições nele representadas, o CEPESCA toma decisões que subsidiam ações de governo e impactam a vida das pessoas.

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Foi o que aconteceu a partir de janeiro de 2015, quando a SEMA foi notificada pelo Ministério Público do Estado, recomendando que o defeso – que é o período de proibição da pesca durante a piracema – passasse de quatro para seis meses, considerando que o prazo de proibição não era definido com base em estudos técnicos. O CEPESCA entrou em ação. Representantes de instituições de pesquisa, coordenados pelo Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP), realizaram um detalhado estudo de todo o conjunto de informações disponíveis à época sobre a reprodução dos peixes de interesse comercial, complementado por estudos de campo nas bacias Amazônica, Araguaia/Tocantins e Alto Paraguai. O objetivo era saber qual a probabilidade de uma espécie de peixe estar em fase de reprodução em um determinado período do ano.

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Depois de seis meses de trabalho, os resultados foram apresentados ao CEPESCA. Mostraram que de outubro a janeiro as chances de os peixes estarem em processo de reprodução são estatisticamente altas na três bacias, enquanto que entre os meses de fevereiro e agosto a probabilidade diminui significativamente. Com base no estudo, o conjunto de instituições do CEPESCA decidiu, então, alterar o período de proibição, que antes ia de novembro a fevereiro.

À decisão se seguiram vários tipos de situações. Uma delas foi a resposta lenta do INSS para regularizar o período de pagamento do Seguro Defeso devido aos pescadores artesanais, apesar de toda a articulação anterior para que este descompasso não ocorresse. Outra foi a demora do governo federal para reconhecer a competência do estado em legislar sobre a proibição no seu território, o que resultou em situações estranhas, como por exemplo

permitir a pesca turística em rios estaduais mas não em rios federais, regidos por oura base legal.

Mas o mais grave é o fato de que a decisão coletiva e unânime do CEPESCA, baseada em estudo científico e sustentada politicamente pela SEMA, intensamente divulgada, reconhecida pela justiça e por fim, pelo governo federal, ainda não parou de sofrer ataques. É importante compreender, de uma vez por todas, que a probabilidade de um peixe ser encontrado em fase reprodutiva de fevereiro a setembro é pequena, mas não significa que não existe. Quando a política pública assume que o defeso deve se concentrar nos meses de maior probabilidade reprodutiva, significa que a medida vai salvaguardar o máximo possível da reproduções dos peixes, equilibrando-a com o máximo de restrição possível à pesca comercial e ao turismo, além dos acordos possíveis com o INSS.

Um bom termômetro da vitalidade de um regime democrático é o fortalecimento das instituições com representação social, onde múltiplas vozes são ouvidas para a tomada de decisões. O CEPESCA é exemplo disto e merece nosso apoio.

Lúcia Aparecida de Fátima Mateus e Flávia Nogueira são professoras doutoras do Departamento de Botânica e Ecologia, Instituto de Biociências (IB), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e representantes da Universidade no CEPESCA

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